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IA Aplicada

Licenciadores proíbem uso de IA na criação de conceitos com personagens como Dragon Ball, Naruto e One Piece

Redação Instituto · · 9 min de leitura

A discussão sobre inteligência artificial no mercado criativo acaba de ganhar um capítulo importante no Brasil.

A Angelotti Licensing publicou, em 27 de agosto de 2026, um comunicado informando ter recebido dos licenciadores que representa uma “proibição expressa” do uso de ferramentas de inteligência artificial na criação e no desenvolvimento de conceitos relacionados a produtos, peças publicitárias e qualquer comunicação envolvendo personagens licenciados.

Na prática, o recado é bastante objetivo: materiais gerados com IA não serão aceitos nos processos de aprovação.

Mas existe um detalhe no comunicado que torna essa decisão ainda mais relevante para agências, departamentos de marketing, designers, fabricantes e empresas que trabalham com produtos licenciados.

A restrição não menciona apenas a utilização de inteligência artificial para produzir a arte que chegará ao consumidor.

Ela inclui também a criação e o desenvolvimento do conceito.

Isso muda bastante o tamanho da discussão.

Não basta entregar uma arte final feita por um designer

Imagine uma empresa licenciada desenvolvendo uma nova coleção de camisetas de Dragon Ball.

A equipe poderia utilizar uma ferramenta de IA generativa para criar dezenas de ideias iniciais de composição, explorar estilos, testar possíveis aplicações dos personagens ou simplesmente buscar referências.

Depois disso, um designer poderia refazer completamente a peça no Illustrator, seguindo os arquivos e o manual oficial da marca.

A arte final teria sido executada por uma pessoa.

Ainda assim, existe uma questão: o conceito nasceu com auxílio da inteligência artificial.

Pela redação adotada no comunicado da Angelotti, esse tipo de processo passa a ser problemático.

Isso significa que as empresas que trabalham com essas propriedades precisarão olhar não apenas para aquilo que entregam para aprovação, mas também para como aquele material foi desenvolvido.

É uma diferença importante.

Durante os últimos anos, boa parte das discussões sobre IA generativa concentrou-se no produto final. A pergunta normalmente era: “essa imagem foi feita por inteligência artificial?”

No mercado de licenciamento, começa a surgir uma pergunta anterior:

a inteligência artificial participou do processo criativo?

Estamos falando de algumas das propriedades mais conhecidas do entretenimento

A decisão ganha peso quando observamos o portfólio administrado pela Angelotti.

Segundo a Associação Brasileira de Licenciamento de Marcas e Personagens, a empresa trabalha com propriedades como Naruto, Naruto Shippuden, Boruto, Dragon Ball, Dragon Ball Z, Dragon Ball GT, Dragon Ball Super, Dragon Ball Daima, One Piece, Digimon, Os Cavaleiros do Zodíaco, Godzilla, Yu-Gi-Oh!, Captain Tsubasa, Bleach, InuYasha, Death Note, One Punch Man, JoJo's Bizarre Adventure e Hunter x Hunter, além de propriedades brasileiras.

A própria Angelotti se apresenta como uma agência com mais de 30 anos de atuação no gerenciamento e desenvolvimento de programas de licenciamento de marcas e personagens nacionais e internacionais.

Portanto, não estamos falando de uma discussão periférica sobre IA.

São propriedades intelectuais capazes de movimentar vestuário, brinquedos, material escolar, alimentos, colecionáveis, eventos, campanhas publicitárias e inúmeras outras categorias.

Naruto, Dragon Ball e One Piece, por exemplo, estão entre as propriedades com forte presença no mercado brasileiro de licenciamento. Luiz Angelotti afirmou recentemente que as três estão entre as marcas mais procuradas pelas empresas dentro desse universo.

Mas afinal, o que aconteceu?

Essa talvez seja a primeira pergunta de quem lê o comunicado.

A Angelotti diz que a determinação foi tomada “devido a alguns acontecimentos recentes”, mas não informa quais acontecimentos foram esses.

Até o momento, portanto, não existe informação pública suficiente para afirmar que determinada empresa utilizou IA indevidamente, que algum material específico foi rejeitado ou que houve um incidente envolvendo uma dessas propriedades.

Qualquer afirmação desse tipo seria especulação. O que sabemos é que a Angelotti recebeu uma orientação de seus licenciadores e decidiu formalizar essa regra para o mercado.

E existem razões bastante concretas para que detentores de propriedades intelectuais sejam cautelosos com IA generativa.

O primeiro problema está no próprio personagem

Quando uma empresa licencia Dragon Ball, Naruto ou qualquer outra propriedade, ela não recebe liberdade para fazer o que quiser com aqueles personagens.

O uso normalmente precisa seguir regras muito específicas.

Existem arquivos oficiais, guias de estilo, versões autorizadas dos personagens, regras de composição, cores, proporções, aplicações, situações permitidas e uma série de critérios definidos pelo proprietário da marca.

Depois vem o processo de aprovação.

É justamente esse controle que permite ao detentor da propriedade manter consistência sobre como seus personagens aparecem em milhares de produtos diferentes.

A inteligência artificial generativa introduz uma nova variável nesse processo.

Um modelo pode modificar pequenas características do personagem, inventar elementos, alterar proporções, misturar estilos ou produzir algo visualmente interessante, mas que simplesmente não faz parte daquele universo oficial.

Para quem está fazendo uma campanha, isso pode parecer apenas uma questão estética.

Para quem controla uma propriedade intelectual global, é uma questão de integridade da marca.

Existe também a questão de onde os arquivos estão sendo enviados

Há outro ponto pouco discutido pelas empresas que utilizam ferramentas generativas.

Para pedir que uma IA produza determinada composição utilizando um personagem, frequentemente alguém envia uma referência para a plataforma.

Pode ser uma imagem encontrada na internet.

Pode ser um arquivo oficial.

Pode até ser algum material fornecido pelo próprio licenciante dentro do processo de desenvolvimento do produto.

Nesse momento, surge outra pergunta importante:

aquela empresa está autorizada a enviar esse material para uma plataforma de inteligência artificial de terceiros?

Dependendo do contrato de licenciamento, dos termos de uso da ferramenta e da natureza dos arquivos utilizados, existe um problema adicional de propriedade intelectual, confidencialidade e governança da informação.

Por isso, a questão não termina na imagem gerada.

Ela começa antes dela.

O licenciamento sempre teve uma cadeia rígida de aprovação

Quem não trabalha diretamente com esse mercado às vezes imagina que licenciar um personagem significa simplesmente pagar pelo direito de colocar sua imagem em um produto.

O processo costuma ser muito mais controlado.

Existe o proprietário da propriedade intelectual, o agente de licenciamento, a empresa licenciada, os fornecedores criativos e, finalmente, a produção.

Um conceito é desenvolvido, apresentado e aprovado antes de chegar ao mercado.

O próprio comunicado da Angelotti reforça que todo material envolvendo personagens licenciados deve passar previamente pela aprovação formal dos licenciadores e cumprir as etapas estabelecidas contratualmente antes de sua produção ou divulgação.

A chegada da IA generativa adiciona um participante bastante diferente nessa cadeia.

O problema é que um modelo generativo não funciona como um ilustrador contratado pela empresa.

Há questões sobre treinamento dos modelos, direitos sobre referências utilizadas, origem de determinadas características presentes nos resultados e até sobre a capacidade de provar exatamente como determinada imagem foi produzida.

Para empresas que administram propriedades intelectuais avaliadas globalmente, assumir esse risco pode simplesmente não fazer sentido.

O problema agora é também de compliance de IA

Aqui está, para mim, a parte mais importante dessa história.

Durante algum tempo, empresas trataram o uso da inteligência artificial como uma decisão individual do profissional.

O designer utilizava.

O redator utilizava.

A agência utilizava.

Alguém dentro da empresa assinava uma ferramenta e começava a experimentar.

Esse período está acabando.

O uso de IA passa cada vez mais a ser uma questão de governança e compliance.

Uma agência que atende uma empresa licenciada, por exemplo, poderá precisar saber exatamente quais ferramentas sua equipe está utilizando durante o desenvolvimento de uma campanha.

E não basta perguntar se a arte final foi gerada por IA.

Será necessário entender se ChatGPT, Midjourney, Adobe Firefly, Gemini ou qualquer outra ferramenta generativa participou da concepção daquele material.

Dependendo das regras do licenciante, até etapas aparentemente inocentes do processo poderão precisar ser revistas.

“Crie dez ideias de estampas utilizando estes personagens.”

“Faça três versões desta composição.”

“Pegue esta referência oficial e proponha outras posições para o personagem.”

“Gere uma campanha publicitária utilizando este universo visual.”

Tudo isso acontece antes da arte final.

E tudo isso pode fazer parte do desenvolvimento do conceito.

Isso significa que inteligência artificial está proibida dentro dessas empresas?

Não necessariamente.

É importante não transformar o comunicado em algo maior do que ele próprio estabelece.

O texto da Angelotti trata especificamente do uso de IA para criação e desenvolvimento de conceitos relacionados aos produtos, peças publicitárias e comunicações que utilizam os personagens licenciados.

Ele não afirma que uma empresa não possa utilizar inteligência artificial para analisar uma planilha, resumir uma reunião, organizar um cronograma ou executar outras atividades administrativas.

O limite colocado está relacionado ao processo envolvendo a propriedade intelectual licenciada.

Mesmo assim, como o comunicado não apresenta uma relação de ferramentas permitidas e proibidas nem descreve todas as situações possíveis, o caminho mais seguro para empresas licenciadas é estabelecer regras internas claras e consultar a própria Angelotti quando existir dúvida.

A discussão sobre IA dentro das empresas ficou mais madura

Esse episódio apresenta uma realidade que veremos com frequência nos próximos anos.

A transformação provocada pela inteligência artificial não será medida apenas pela quantidade de ferramentas que uma empresa consegue incorporar.

Parte da maturidade estará justamente em saber quando utilizá-las e quando não utilizá-las.

Existem processos em que IA pode aumentar drasticamente produtividade, reduzir tarefas operacionais e ampliar capacidade analítica.

Existem outros em que questões contratuais, propriedade intelectual, privacidade, segurança da informação ou regulamentação simplesmente impedem seu uso.

O comunicado da Angelotti é um exemplo bastante concreto dessa nova fase.

Não estamos mais discutindo apenas se uma ferramenta consegue criar uma boa imagem de um personagem.

Estamos discutindo se a empresa tem autorização para colocar uma inteligência artificial dentro daquele processo criativo.

Essa é uma conversa completamente diferente.

E talvez uma das principais discussões de governança de IA que departamentos de marketing, agências e empresas criativas terão de enfrentar daqui para frente.

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