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Opinião & Tendências

Se você quer prever o futuro das agências, basta estudar o passado.

Rodrigo Neves · · 8 min de leitura

Existe uma tendência curiosa no mundo dos negócios: quando queremos prever o futuro, quase sempre olhamos para a tecnologia mais recente.

Tentamos imaginar como será o mercado a partir da próxima plataforma, da próxima rede social, da próxima ferramenta de automação ou da próxima evolução da Inteligência Artificial.

Mas, em determinados momentos, para compreender o que está por vir, não precisamos olhar para a frente. Precisamos olhar para trás.

Porque a história dos negócios não acontece apenas em linha reta. Ela também funciona em ciclos. Conceitos desaparecem, mudam de forma e retornam quando o mercado volta a precisar deles.

É exatamente isso que está acontecendo com as agências.

Durante anos, elas tentaram se transformar em grandes estruturas de execução. Agora, diante de um mercado cada vez mais fragmentado, tecnológico e complexo, precisarão recuperar sua função original: Agenciar.

Só que essa função voltará mais estratégica, mais sofisticada e muito mais abrangente. O nome desse novo papel será Orquestrador.

Antes de executar, a agência agenciava

A palavra agência não nasceu como sinônimo de empresa que cria campanhas, produz conteúdo ou compra mídia. Uma agência era, essencialmente, uma intermediadora.

Sua função era representar interesses, conectar pessoas, acessar recursos e coordenar relações. Ela não precisava necessariamente possuir todos os talentos, ferramentas e estruturas envolvidos em uma operação.

Seu valor estava na capacidade de encontrar, selecionar, conectar e dirigir os recursos necessários para alcançar determinado objetivo.

A agência agenciava.

Com o tempo, entretanto, o mercado publicitário e digital alterou profundamente esse modelo. As agências passaram a acreditar que precisavam dominar e executar praticamente todas as disciplinas internamente.

Criaram áreas de planejamento, criação, mídia, conteúdo, tecnologia, atendimento, dados, performance, social media, design, vídeo, automação e desenvolvimento.

Quanto mais serviços ofereciam, mais completas pareciam ser.

Nasceu a ideia da agência full service: uma única empresa capaz de resolver tudo para o cliente.

Esse modelo funcionou durante algum tempo.

O problema é que o digital tornou o conhecimento amplo demais, rápido demais e especializado demais para caber dentro de uma única estrutura.

A promessa da agência completa se tornou impossível

Hoje, o ecossistema digital reúne centenas de disciplinas, plataformas e competências.

Não basta conhecer publicidade.

É preciso compreender dados, tecnologia, automação, experiência do usuário, produção de conteúdo, privacidade, segurança, inteligência artificial, comércio eletrônico, CRM, mídia, reputação, comunidades e transformação digital.

Cada uma dessas áreas se tornou um universo próprio. Ao mesmo tempo, o mercado se fragmentou. Surgiram empresas especializadas em performance, conteúdo, dados, SEO, experiência, influência, tecnologia, automação, branding e Inteligência Artificial.

Também cresceram os profissionais independentes, as consultorias especializadas, os estúdios de produção e as plataformas de software que passaram a executar funções antes concentradas nas agências.

A fragmentação trouxe eficiência e profundidade técnica, mas criou outro problema: As empresas passaram a ter mais fornecedores, mais ferramentas, mais canais, mais especialistas e mais dados, sem necessariamente possuir maior capacidade de coordená-los.

Temos mais recursos do que nunca. E, paradoxalmente, menos integração.

Os números mostram um mercado sob pressão

Essa transformação não é apenas conceitual.

Os orçamentos de marketing permanecem pressionados. Em 2026, o investimento médio em marketing chegou a 7,8% da receita das empresas, praticamente estável em relação aos 7,7% registrados em 2025. Ao mesmo tempo, 15,3% desses orçamentos já são destinados à Inteligência Artificial, embora apenas 30% dos líderes de marketing afirmem estar preparados para escalar suas capacidades de IA.

Isso significa que os gestores precisam incorporar novas tecnologias sem receber, necessariamente, mais recursos para isso.

Precisam fazer mais, com orçamentos semelhantes, em mais canais, Com mais ferramentas e com maior pressão por resultados.

O digital já representa 61,1% de todo o investimento de marketing. Em sete de cada dez setores analisados pela Gartner, mais de 60% do orçamento está concentrado em canais digitais.

Entretanto, aumentar o investimento digital não significa aumentar a maturidade digital. Uma empresa pode contratar novas plataformas, ampliar sua mídia, produzir mais conteúdo e implantar Inteligência Artificial sem criar uma operação verdadeiramente integrada, como resultado:

  • Pode ter muitas tecnologias e pouca estratégia. 
  • Muitos especialistas e pouca coordenação. 
  • Muitos dashboards e pouca clareza.
  • Muitas entregas e pouco resultado.

O problema deixou de ser a falta de especialistas

Durante muito tempo, uma das principais dificuldades das empresas era encontrar profissionais capazes de executar determinadas atividades.

Hoje, o cenário é diferente. Existe uma oferta crescente de profissionais, empresas especializadas, plataformas SaaS e ferramentas de Inteligência Artificial.

Em poucos minutos, uma empresa pode encontrar alguém para desenvolver um site, criar uma campanha, configurar uma automação, produzir um vídeo ou analisar uma base de dados.

A execução está se tornando mais acessível.

A Inteligência Artificial acelera ainda mais esse processo.

Textos, imagens, vídeos, códigos, análises e automações podem ser produzidos em uma velocidade que seria inimaginável alguns anos atrás.

Mas a abundância de execução não elimina a necessidade de inteligência.

Ela aumenta essa necessidade.

Quanto mais ferramentas existem, mais difícil é escolher.

Quanto mais especialistas participam, mais difícil é integrar.

Quanto mais rápido se produz, maior o risco de produzir coisas desconectadas da estratégia.

O verdadeiro gargalo do mercado não será a capacidade de fazer.

Será a capacidade de coordenar o que está sendo feito.

A Inteligência Artificial não elimina a agência. Ela elimina a agência puramente operacional.

A IA reduzirá drasticamente o valor de muitas atividades que ainda são vendidas como diferenciais.

Produzir uma peça.

Adaptar um formato.

Criar uma primeira versão de um texto.

Organizar informações.

Gerar relatórios.

Executar tarefas repetitivas.

Essas atividades não desaparecerão completamente, mas se tornarão mais rápidas, automatizadas e acessíveis.

O valor econômico migrará da execução isolada para a capacidade de definir objetivos, organizar fluxos, selecionar recursos, integrar dados e dirigir decisões.

Essa mudança já aparece no próprio desenvolvimento da Inteligência Artificial.

À medida que agentes de IA começam a executar diferentes funções, o desafio deixa de ser simplesmente criar mais agentes. Passa a ser coordenar agentes especializados, evitar duplicações, definir responsabilidades e garantir governança.

A McKinsey alerta para o risco de uma proliferação descontrolada de agentes fragmentados e redundantes dentro das organizações. Por isso, empresas de tecnologia estão desenvolvendo camadas específicas de orquestração capazes de conectar esses agentes.

A Deloitte também aponta que o crescimento dos agentes de IA traz oportunidades, mas cria desafios complexos de integração, coordenação e governança.

Essa lógica não vale apenas para sistemas tecnológicos. Vale também para o mercado de agências. Não precisaremos somente de mais ferramentas, profissionais e fornecedores. Precisaremos de alguém capaz de fazer todos eles trabalharem na mesma direção.

Surge a Agência Orquestradora

A agência do futuro não será, necessariamente, aquela que tiver a maior estrutura interna. Será aquela que possuir a maior capacidade de mobilizar e coordenar o ecossistema certo para cada desafio.

Ela poderá manter competências próprias, mas não precisará executar tudo.

Seu diferencial não estará em afirmar:

“Nós fazemos tudo.”

Estará em assegurar:

“Nós sabemos o que precisa ser feito, quem deve fazer, como as partes se conectam e quais resultados precisam ser alcançados.”

Essa é a Agência Orquestradora.

Ela entende profundamente o negócio do cliente, traduz objetivos empresariais em prioridades digitais, seleciona especialistas, escolhe tecnologias, conecta fornecedores, integra dados, coordena agentes de Inteligência Artificial, estabelece indicadores, organiza responsabilidades e mantém todos os participantes alinhados a uma única estratégia.

No fim, o futuro das agências pode estar justamente em seu passado.

Elas nasceram para agenciar, para representar, para conectar, para organizar recursos que não precisavam estar, necessariamente, dentro de sua própria estrutura.

Durante algumas décadas, confundiram relevância com tamanho.

Acreditaram que, para serem indispensáveis, precisariam executar tudo.

Mas o mercado digital está demonstrando o contrário.

Em um ambiente com milhares de tecnologias, especialistas, plataformas e inteligências artificiais, ninguém conseguirá concentrar todas as competências.

O valor não estará na posse de todos os recursos, estará na capacidade de conectá-los.

A agência voltará a agenciar, mas não apenas pessoas. Ela agenciará talentos, empresas, ferramentas, dados, plataformas, processos e agentes de Inteligência Artificial.

Por isso, chamar esse novo modelo apenas de agência talvez já não seja suficiente.

O mercado não precisa de mais uma empresa prometendo fazer tudo.

Precisa de alguém que compreenda o todo.

Alguém que transforme fragmentação em integração.

Complexidade em direção.

Tecnologia em resultado.

Ruído em harmonia.

O passado está voltando.

Mas ele não voltará com o mesmo nome.

No passado, chamávamos essa empresa de agência.

No futuro, vamos chamá-la de Orquestradora.

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