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Tecnologia & Plataformas

Todo website será um MCP

WebMCP, IA e agentic commerce estão mudando os websites. Entenda por que sites precisam estar prontos para agentes.

Rodrigo Neves · · 8 min de leitura

Há cerca de um ano, quando escrevi sobre como imaginava o futuro da web, falei que um protocolo novo iria dominar a forma como tudo se comunicava. Na época, era uma provocação e um primeiro exercício de imaginar como funcionaria o chamado agentic commerce. Hoje, olhando para o que está acontecendo no mercado, essa provocação começa a parecer muito menos futurista.

Durante praticamente toda a história da internet comercial, construímos websites para pessoas. Depois aprendemos que também precisávamos construí-los para mecanismos de busca. Surgiram SEO, dados estruturados, sitemaps, Core Web Vitals, acessibilidade, performance e uma série de padrões técnicos para ajudar máquinas a compreender aquilo que havíamos criado originalmente para humanos.

Agora estamos entrando em uma terceira fase: precisamos construir websites para máquinas que não querem apenas encontrar ou interpretar uma página. Elas querem agir sobre ela.

Isso muda profundamente o papel de um website.

O Google adicionou recentemente ao Lighthouse uma nova categoria experimental chamada Agentic Browsing, voltada justamente para avaliar se uma página está preparada para receber agentes de inteligência artificial. Entre os pontos analisados estão estabilidade da interface, acessibilidade, llms.txt e a utilização do WebMCP, que permite que um site exponha funcionalidades de forma estruturada para agentes.

O WebMCP é especialmente importante porque muda a forma como uma IA interage com uma página. Em vez de um agente precisar interpretar visualmente um botão, descobrir quais campos existem em um formulário e tentar reproduzir o comportamento de um usuário, o próprio website pode declarar explicitamente suas capacidades. O Google já documenta exemplos como “reservar uma mesa” ou “adicionar ao carrinho”, registrados como ferramentas que podem ser descobertas e utilizadas pelo agente.

Pense nas implicações disso para um e-commerce. Hoje, alguém acessa o Google, procura um produto, visita alguns sites, compara preços, lê avaliações, verifica frete e finalmente realiza a compra. Amanhã, essa pessoa poderá simplesmente dizer ao seu agente: “preciso de um notebook para trabalhar com desenvolvimento, até R$ 8 mil, que seja entregue até sexta-feira”.

O agente poderá fazer todo o restante.

Ele pesquisará produtos, analisará especificações, consultará preços, verificará disponibilidade, calculará frete, avaliará reputação, comparará opções e eventualmente poderá até concluir a compra. Nesse cenário, competir pela atenção humana continua sendo importante, mas surge uma segunda disputa igualmente relevante: ser uma empresa que as máquinas conseguem encontrar, compreender, consultar e acionar.

Isso não é uma tendência marginal. A McKinsey estima que, até 2030, agentes de IA poderão mediar entre US$ 3 trilhões e US$ 5 trilhões do comércio global de bens. Somente no varejo B2C dos Estados Unidos, a oportunidade estimada chega a aproximadamente US$ 1 trilhão. A consultoria também aponta que cerca de metade dos consumidores já utiliza IA em algum momento de suas pesquisas na internet.

Há sinais concretos acontecendo agora. Segundo dados da Salesforce, durante a Cyber Week de 2025, IA e agentes influenciaram US$ 67 bilhões em vendas, representando 20% de todas as compras analisadas no período. No conjunto da temporada de festas de 2025, a empresa estimou US$ 262 bilhões em vendas online influenciadas por IA.

Portanto, quando falamos em preparar websites para agentes, não estamos discutindo somente uma nova técnica de desenvolvimento. Estamos discutindo uma possível mudança na arquitetura da aquisição digital.

Até agora, boa parte da competição digital acontecia pelo clique. Você precisava aparecer no Google, comprar mídia, conquistar uma boa posição, convencer alguém a clicar e depois converter esse usuário dentro do seu ambiente. Com agentes, parte dessa jornada pode desaparecer da interface humana. A máquina poderá pesquisar dez empresas sem necessariamente abrir dez abas visíveis para seu usuário.

É justamente aqui que acredito que surge uma nova disciplina.

SEO trata da capacidade de uma empresa ser encontrada pelos mecanismos de busca. GEO vem tratando da capacidade de marcas e conteúdos serem compreendidos, recuperados e citados por mecanismos generativos. Agora começamos a precisar pensar também em algo que eu chamaria de AXO — Agent Experience Optimization: a capacidade de uma empresa ser compreendida e, principalmente, utilizada por agentes.

Porque existe uma diferença enorme entre ser legível por uma IA e ser acionável por uma IA.

O llms.txt, por exemplo, ajuda a oferecer uma representação mais organizada do conteúdo de um site para modelos e agentes. O próprio Google o descreve como uma convenção emergente para fornecer um resumo legível por máquina da estrutura e do conteúdo de um website. Hoje sua utilização ainda é opcional na auditoria do Lighthouse.

O WebMCP vai além. Ele começa a transformar funcionalidades do website em ferramentas que podem ser utilizadas diretamente por agentes. Um formulário deixa de ser apenas um conjunto visual de campos e passa a poder declarar seu nome, sua função, seus parâmetros e o que se espera de cada informação.

É a diferença entre uma máquina olhar para uma interface e tentar descobrir como utilizá-la ou o próprio sistema dizer: “estas são as coisas que você pode fazer comigo e esta é a maneira correta de executá-las.”

Na VitaminaWeb, não estamos apenas estudando essa transformação. Já estamos trabalhando tecnicamente para construir essa nova geração de experiências digitais. Nosso próprio website é um laboratório dessa visão e, em nossas avaliações, conseguimos atingir nota máxima nos requisitos avaliados pelo Google PageSpeed/Lighthouse, trabalhando performance, acessibilidade, boas práticas, SEO e preparação técnica da experiência digital.

Isso é importante porque existe uma diferença enorme entre falar sobre transformação digital e conseguir colocá-la em produção.

A VitaminaWeb já tem capacidade para desenvolver websites preparados para essa nova arquitetura, incluindo performance, estrutura semântica, acessibilidade, llms.txt, dados estruturados e implementação de recursos voltados à interação com agentes por meio do WebMCP. Nossa visão é que o desenvolvimento web precisará incorporar uma nova premissa: um website deverá funcionar igualmente bem para pessoas, mecanismos de busca, modelos de linguagem e agentes autônomos.

E acredito que isso rapidamente deixará de ser apenas uma discussão técnica.

Hoje, não existe evidência de que implementar llms.txt ou WebMCP gere automaticamente ganho de posicionamento orgânico. O próprio Google ainda trata parte desses recursos como experimentais ou informativos. Portanto, seria precipitado afirmar que WebMCP já é um fator de ranking.

Minha aposta está no que vem depois.

Performance começou como preocupação técnica e posteriormente virou parte da discussão de experiência e qualidade. Mobile começou como adaptação e virou mobile-first. Dados estruturados começaram como otimização e se tornaram fundamentais para vários tipos de descoberta. É perfeitamente plausível imaginar que a capacidade de uma empresa atender agentes passe pelo mesmo processo.

E não necessariamente apenas no SEO.

Se agentes começarem a intermediar uma parcela relevante da descoberta e da compra, plataformas de publicidade também terão interesse em avaliar quais destinos conseguem efetivamente completar uma ação iniciada por IA. Nesse cenário, aquilo que hoje chamamos de “qualidade da página de destino” poderá passar a incorporar também a qualidade da experiência oferecida para agentes.

A mudança mais interessante, entretanto, pode acontecer no próprio conceito de tráfego.

Durante vinte anos discutimos como levar usuários para nossos websites. Talvez, nos próximos anos, parte do objetivo deixe de ser trazer o usuário até o site e passe a ser levar as capacidades do site até o agente do usuário.

Isso é uma mudança brutal.

Um banco poderá expor uma simulação. Uma companhia aérea poderá expor busca e reserva. Uma clínica poderá expor agenda. Uma indústria poderá expor catálogo e disponibilidade. Uma empresa B2B poderá permitir solicitação de orçamento. Um e-commerce poderá permitir pesquisa, comparação, carrinho e compra.

O website continuará existindo, mas poderá deixar de ser apenas um destino. Ele se transformará em uma camada de infraestrutura digital acessível por pessoas e máquinas.

É nesse sentido que continuo defendendo a provocação que fiz há um ano: todo website será um MCP. Talvez não literalmente um servidor MCP em sua definição técnica atual, mas certamente uma estrutura que precisará expor contexto, dados, funcionalidades e ações para agentes de maneira padronizada.

No longo prazo, tenho mais perguntas do que respostas. Talvez continuemos visitando websites normalmente. Talvez eles se tornem cada vez mais uma interface visual opcional sobre uma enorme infraestrutura de serviços. Talvez os agentes passem a negociar diretamente com plataformas. Talvez marketplaces percam parte de sua função de agregação para agentes que possam pesquisar milhares de fornecedores simultaneamente.

Ou talvez aconteça algo ainda mais interessante: a própria web se transforme no marketplace dos marketplaces.

O que parece cada vez mais claro é que a próxima transformação da internet não acontecerá apenas na forma como humanos navegam. Ela acontecerá na maneira como máquinas descobrem empresas, interpretam ofertas, selecionam fornecedores, executam tarefas e realizam transações.

E, quando isso acontecer, uma pergunta poderá se tornar tão importante quanto “meu site aparece no Google?”:

se um agente de IA quiser fazer negócios com a minha empresa, meu website sabe atendê-lo?

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