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Tecnologia & Plataformas

Kitesurf: por que a Cloudflare criou um navegador para agentes de IA

Kitesurf é o navegador da Cloudflare criado para agentes de IA. Entenda por que essa tecnologia muda a lógica da web.

Rodrigo Neves · · 5 min de leitura

A Cloudflare resolveu criar um navegador. Até aí, poderia parecer apenas mais uma empresa entrando em um mercado dominado por Chrome, Safari, Edge e Firefox. Só que o Kitesurf não foi criado para você navegar na internet. Foi criado para agentes de inteligência artificial.

Essa diferença explica praticamente tudo.

Durante décadas, os navegadores foram desenvolvidos pensando em pessoas. Precisam renderizar páginas com precisão, reproduzir vídeos, executar animações, suportar extensões, organizar abas e entregar uma experiência visual cada vez melhor.

Um agente de IA tem outras prioridades.

Ele precisa acessar uma página, interpretar seu conteúdo, encontrar informações, executar uma tarefa e seguir em frente. Quanto menos processamento, memória e contexto forem necessários para fazer isso, melhor.

Foi pensando nesse cenário que a Cloudflare desenvolveu o Kitesurf, um navegador stateless e altamente escalável, executado sobre Cloudflare Workers e projetado especificamente para workloads de agentes de IA.

Um navegador que não precisa impressionar seus olhos

A arquitetura do Kitesurf parte de uma escolha interessante: ele abre mão de algumas características fundamentais para um navegador humano em troca de eficiência.

A própria Cloudflare explica que o projeto prioriza consumo de tokens, tamanho de contexto, escalabilidade, desempenho e custo. Recursos como abas, temas, extensões e renderização visual pixel perfect simplesmente não têm a mesma importância quando quem está navegando é uma máquina.

Isso ajuda a entender por que usar uma instância completa do Chromium para cada pequena tarefa executada por um agente pode ser um desperdício de recursos.

E os testes publicados pela Cloudflare mostram bem essa diferença.

Em tarefas de captura de tela, o Kitesurf consumiu 3,1 vezes menos CPU e 4,7 vezes menos memória que o Chromium utilizado no teste. Na extração de HTML, foram 3,8 vezes menos CPU e 7 vezes menos memória.

Existe uma contrapartida: o Chromium foi mais rápido no tempo total dessas operações. O Kitesurf levou aproximadamente 1,8 vez mais tempo para screenshots e 1,7 vez mais para extração de HTML.

Ou seja, não faz sentido dizer que o Kitesurf é simplesmente melhor que o Chromium. São arquiteturas construídas com prioridades diferentes.

Para milhões de tarefas curtas executadas por agentes, entretanto, reduzir radicalmente CPU e memória pode representar uma diferença enorme de infraestrutura e custo.

Como o Kitesurf funciona

O Kitesurf faz parte do Cloudflare Browser Run, plataforma que permite controlar navegadores programaticamente na infraestrutura global da empresa.

Por meio dela, aplicações podem abrir páginas, extrair HTML ou Markdown, gerar screenshots e PDFs, coletar links, fazer crawling e obter dados estruturados. O Browser Run também permite sessões mais completas utilizando tecnologias como Puppeteer, Playwright e Chrome DevTools Protocol.

O Kitesurf entra como uma nova opção dentro dessa estrutura.

Um desenvolvedor pode, por exemplo, solicitar que determinada tarefa seja executada usando Kitesurf em vez do navegador padrão baseado em Chromium.

Também há suporte ao Chrome DevTools Protocol, o CDP. Isso significa que aplicações que já utilizam Puppeteer, Playwright ou outras ferramentas compatíveis podem trabalhar com ele sem que todo o ecossistema precise ser reconstruído.

E existe um detalhe ainda mais relevante para o momento atual: a documentação informa que agentes compatíveis com MCP e CDP também podem usar o Kitesurf como navegador.

É justamente aqui que a tecnologia deixa de ser apenas uma curiosidade para desenvolvedores.

A IA está deixando de responder e começando a navegar

Pense na diferença entre pedir para uma IA explicar quais são os melhores hotéis de uma cidade e pedir para ela pesquisar disponibilidade, comparar preços, avaliar localização e encontrar a melhor opção para determinada viagem.

No segundo caso, o modelo precisa sair da conversa e interagir com a web.

O mesmo vale para alguém que peça a um agente para localizar fornecedores, comparar softwares, encontrar produtos, consultar informações em diferentes páginas ou preencher determinado formulário.

Quanto mais esses casos crescerem, maior será a necessidade de infraestrutura desenvolvida especificamente para agentes.

O Kitesurf é um sinal bastante claro dessa mudança.

A Cloudflare já consegue executar uma quantidade relevante de padrões da web nessa arquitetura. Segundo sua documentação atual, o navegador passa por mais de 235 mil subtestes do Web Platform Tests, conjunto utilizado para avaliar conformidade com padrões da web. A cobertura divulgada chega a 97% em DOM, 96% em HTML e 99% em áreas como Selection e Encoding.

Ainda existem limitações. Vídeo, WebGL, determinados desafios antibot e sessões autenticadas persistentes continuam sendo situações nas quais a própria Cloudflare recomenda o Chromium. O Kitesurf também permanece em beta.

Mas talvez seja um erro olhar apenas para o que ele consegue fazer hoje.

A pergunta interessante é por que uma das maiores empresas de infraestrutura da internet decidiu que fazia sentido construir um navegador especificamente para agentes de IA.

A resposta é relativamente simples: as máquinas estão começando a navegar pela web de uma maneira diferente.

E, se os navegadores estão mudando para receber esse novo usuário, existe uma segunda pergunta que merece atenção: os nossos sites também estão preparados para ele?

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